domingo, 5 de janeiro de 2014

"De como é relativamente simples o arranjo de versos, rimas e algum ritmo com o intuito precípuo de não significar nada, ainda que sim"

Para porcos, no mato, pouco intento;
Para onças no campo, muitas antas;
No alto-mar que navegam as jamantas;
No quintal do roceiro, um jumento.

É preciso pisar as terras santas
E clamar os seus nomes contra o vento
E apostar no berreiro do rebento -
Transmutar colo, peito, fralda e mantas.

Nessa valsa demais indecorosa,
A arrogância, a altivez que ora a orna
Dá ensanchas a mui perversa sina:

O querer entronar-se, gloriosa,
A patética sanha da descorna
Do vacum que troveja e que malsina.

domingo, 11 de agosto de 2013

Pai

Por que caminhos corres, alma agreste
Ao fenecer da forma transitória,
Do que despontam fábula e estória,
No amalgamar da síntese celeste?

Em que paragem d'alma o que fizeste?
Em que recanto segues tua História?
Com que roupagem tece a trajetória,
Destino, plasmador sutil e inerte?

Há mais tensão nas cordas que ora ficam
No farfalhar das horas nebulosas,
No borbulhar do livro e fala tersos...

Oh, pai, a Deus as Musas te suplicam,
E sói que as minhas falas tenebrosas
Não tanjam mais rabiscos, cantos, versos!...

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

"Delírios aristotélicos"

Sentado, a olhar o mundo do meu banco
De estimação, na praça mais querida,
Meus olhos, de repente, eu estanco
A ver o espetáculo da vida...
As árvores e flores, tudo arranco
Co'a força aristotélica pulsante
De seu tratado sobre a Metafísica,
Que extrai do ergástulo do barro o guante
À mostra da pureza paradísica...

O psicobiofísico modelo
É a causa essencial de todo ente
A se mostrar ao mundo com tal zelo,
No lapidar do Ser pré-existente...
Eu vejo a planta, o animal, o gelo
E sei que esta "causa" mais confunde
Ao misturar a "forma" e o "Formador"
E o pensamento infante assim contunde
Causando do intelecto grande dor...

Volvendo à terra os olhos muito ávidos,
Percebo folhas chãs de xantofila.
Nas bordas, proliferam-se, impávidos,
Os decompositores, em sua fila,
Deixando, aos milhares, rincões grávidos...
A bioquímica dos nunca vistos
Dá conta das restantes causas primas
Guardando e ora fervendo nos seus cistos
O que a razão não diz em pobres rimas...

Formal, a causa-essência de outra causa,
A Material, que é feita em finitudes,
A Eficiente, dona de hausto e pausa,
A Causa cáusica das amplitudes
Que espera, Creadora, o ser concausa
De nós, os seres vivos, Causa-fim...
Já de Aristóteles, o ser flamívomo,
Não sinto a aura neste meu jardim
E o verbo cônscio, puro e ignívomo...

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

"Moça Suave dos Olhos Doces"

Na solidão daqueles que se apagam
E passam pelo mundo incognoscíveis,
Talvez houvesses visto, desprezíveis,
Os belos que os mais belos invejaram.

Não sei dos sonhos teus, imperecíveis,
Tampouco dos chacais que tos calaram,
Bastarda algaravia em que se inflaram
Tão cegos aos sentidos invisíveis...

No entanto, Moça, eu sei o que acalentas!
Doçura em olhos fala mais que verbos
E, vida adiante, eu sei por que persistes...

Pois, dia hão de ter fim tuas tormentas
E os frutos todos que colheste acerbos...
Oh, Moça! Olha p'ros meus olhos tristes!...

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Procura...

Por oportuno digo-te, senhor, que a trilha é longa e seca. Não há árvores nem sombra. Toma. Leva água e alguns suprimentos. Deixa teu cavalo aqui. Ele não precisa encontrar o que tu procuras. Sofre o pó do caminho, mas não te ajoelhes ou serás vencido pela inércia. Não aguardes socorro. Não esperes recompensa...
O que encontrarás? Tudo. Ou nada. Ainda assim, anda. Caminhar em direção ao nada ou ao desconhecido é sempre um suicídio necessário. Mata-te, pois, e sairás vivo. Volta, se puderes...

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Soneto

Mudam-se as moedas, mudam-se as verdades,
Mudam-se juros, regras da Poupança...
A Economia muda, sem confiança,
Fugindo sempre e mais das realidades.

O "Poderio" inventa novidades,
E enfeita o caos, vestido de bonança.
E o jogo interno e externo da balança
A encher os olhos, cheios de vontades...

E o povo a se enganar em todo canto,
Trabalha, samba e bebe, noite e dia,
Sem dar-se conta do cruel quebranto...

Berrando, na falácia da alegria,
Desperta, triste, envolto por seu pranto:
O bolso hoje "dói" mais do que "doía"...


Camões, desconsidere-me em nome da velha amizade!...

terça-feira, 31 de julho de 2012

"Delirium tremens"

Há mais de mim em mim do que convinha,
Redemoinho a que, servil, me afeito,
Revolto mar que enfrento sem ter linha
Que me conduza, enfim, da terra ao leito.

Não é a dor qualquer que me sujeito.
Um canto obscuro troa pela rinha -
O eu que fui e o que ora sou, num preito
À luta sem senhor que se avizinha.

Mas, eis um pálio cálido fulgura,
Calor da vida, antídoto ao infausto;
Cadente luz de graciosa estrela

Suavemente jaz sobre a figura
Do homem triste que, em holocausto,
Duvida do que fez por merecê-la.

terça-feira, 20 de março de 2012

"Grito" - Humberto de Campos (A Salvador Rueda)

Ao sondar minha Dor, qual se chorara,
Pedi: -"Cristãos, vede meu mal traiçoeiro!"
Mas os homens sem fé, no mundo inteiro,
Ver não quiseram minha sorte amara.

Cheio de nojo, procurei uma ara,
E implorei: -"Homens d'honra, a mim, primeiro!"
E, de tanto fingido cavaleiro,
Nenhum, para me ouvir, volveu a cara.

-"Filantropos, - clamei - predicadores,
Moralistas, filósofos, doutores,
Consolai o meu íntimo desgosto!"

Não se ouviu meu gemido suplicante...
Gritei: -"Canalhas!" e, no mesmo instante,
Todo mundo me olhou, voltando o rosto!



sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Até um dia, Corneta!

Até um dia, Corneta! Sei que melhores mãos lhe conduzem os passos agora!...

Revejo tudo, todas as etapas. Tento ver que falhas cometi. Não sei dizer...

Sabemos, você e eu, que a amei por ideal, desde o momento em que vi sua foto num apelo por e-mail. Mesmo sabendo que os relatos não eram lá muito fiéis, que sua idade não era tão avançada e que seu problema não era apenas dor por maus tratos. Desc...obri isso assim que abri a caixa de transporte e você saiu, como um zumbi, pelo apartamento. Sua atrofia muscular, sua magreza excessiva... Eu senti, de certa forma, que seu tempo de convivência seria curto entre nós... E você se superou! Não ganhou peso, mas, ainda assim, ganhou viço. Seu temperamento "intratável" causou sérios problemas com os outros gatos... No entanto, como eu poderia esquecer o impacto de seu olhar naquelas fotos? Como poderia fechar-me a você? Você se lembra bem do borrifador de água para impedir que machucasse os outros gatos, não?

Querida, não há um momento de arrependimento! Mesmo com todas as vezes em que tive que brigar com você por seu comportamento agressivo. Guardo todos os arranhões e mordidas com carinho. Como guardo o instante mágico em que você, sem jeito, veio pedir-me o primeiro cafuné...

Nos últimos tempos, você já ensaiava deitar-se em meu colo, o que eu nunca consegui de você. Totalmente desengonçada, mal ficava cinco minutos e saía contrariada!...

Ah, minha gata porquinha! Desajeitada, esfomeada, sem nenhum jeito! Não mais verei seu pratinho de água arranhado, arrastado até o meio da cozinha, deixando uma inundação pelo caminho, porque era o seu jeito de beber!

Que saudade de todos os furos que você faria em meus lençóis, com suas garras, que nunca aprendeu a retrair! Da sua indignação sempre que via o Biruta!... E como doerá ver a Lua cheia, ocasião em que você sempre ficava extasiada no quintal, como que hipnotizada pela beleza maior do que nós mesmos e que, mesmo sem entender, você sentia!

Ah, Corneta! Não há o que descreva o que sinto!... Perdoe-me por qualquer falha!

Siga seu caminho, filha! Até um dia!!

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

"Sabidoria Minêra"

Levanto antes do galo e, na currida,
Vô oiá as roça, as flô e as criação
Pra mó di vê se as coisa tá benzida
E pego uns gáio prá acendê o fugão.

Passo o café e vô pro meu portão
Prá quentá sor e prá oiá a vida
E os povo que num chega pra essa lida
Di trabaiá prá garantí o pão.

Uai, qui chêga um ôme cum assunto:
"Pra quê nóis véve assim, tudo cirtim?"
Ô sarto fora e digo: "Sô dotô,

Brô di fubá, um pito e um cafizim,
E ô num penso mais e nem pregunto
Doncovim, oncotô e proncovô!..."

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Tudo o que perdemos...

          Sim, foi tudo, foi muito! Um rasgo sem bordas na alma, a sensação da morte em vida, a negação da vida pela própria vida, que seguiu caminhos incertos, tortuosos, acérrimos...
          Sim, foi tudo! Não mais aquele sorriso, não mais aquele silêncio casado, não mais a palavra de um na mente do outro. Nada!... A secura dos olhos, já cansados do pranto, mormente à noite, o horário das solidões...
          Eu sei, é o discurso tardio do enterro! Entenda que é preciso, muitas vezes, retirar da visão todas as sujidades, todas as impurezas, o que requer tempo, ao menos a mim o exigiu...
          É tarde, eu compreendo. E o que sabe de tempo a dor? A dor é o que fica, a tentar preencher o vazio inocuamente. Ela não para, ela não cessa, a não ser que... Mas, não! Eu sei que não. Muitos anos para saber que não...
          No entanto, por menos quisesse, sempre estarei presente e você, que sempre arrasto, também...
          Seja feliz longe, peço, para que eu me tranquilize. Entregue-se à vida, não a deixe morrer mais; não permita seja tolhida mais do que já a tolhi!... Avance, erga a cabeça, mire o horizonte! Sinta o coração, sob plumas, bater e querer e queimar e tomar!...
          O meu permanecerá aqui, inquieto mas inerte, uma vez que as sombrias asas o tomaram de assalto.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A Descoberto

          Frio, imenso frio, na alma e que se reflete no corpo. Tremores, a busca por um cobertor que nunca basta. A ideia desesperada de preparar uma bolsa de água quente... E a coragem de mover-me? Nesse momento, um pensamento: "o frio atinge os ossos?". Que besteira! Por que pensar isso? De onde veio isso? Dou-me conta de que, como nos dias de febre, pensamos coisas, muitas coisas, que vêm de diferentes e variados compartimentos da mente ou, sei lá, do mundo exterior e que de alguma forma captamos. Perdi-me novamente e a providência para cessar meu frio não é tomada. A casa totalmente escura. Sei-a de cor. Sei quantos passos até a sala e o que devo contornar. Daí até a cozinha e como achar o fogão. Sei mesmo até quando a gata está à minha frente ou não, para que não lhe pise o rabo. Gata velhinha, já sem muita noção. Coitada! Sofreu horrores em sua antiga casa, nem sei como sobreviveu 13 anos!... Acolhi-a porque tive empatia. Hoje sei que se não o tivesse feito ninguém o faria: temperamental ao extremo, cheia de "não-me-toques", "pode isso, mas não pode aquilo"... Rio-me porque, ainda assim, eu a conquistei. Só preciso que entenda duas coisas: o meu lado da cama é sagrado e vassouras e objetos semelhantes em minha mão não são armas... Acho que é este o fator que nos faz sentir tanto frio: a coisificação da vida! Sim, isso mesmo! A nada damos valor, a nada acolhemos verdadeiramente, a nada respeitamos. O frio deve ser o reflexo íntimo do mal que em nós prevalece... E cá estou novamente, tremendo, divagando e sem tomar providências para cessar o frio! Mas, e se eu fizer tudo e ele permanecer? Estarei louco? Será o caso de procurar um médico e dizer "Doutor, sinto muito frio! Não sei de onde vem, mas é muito forte!"... Acho que não... ou sim? Médicos não sabem lidar com o imensurável. Certamente, ele aferiria a temperatura e diria: "Não há sinal de febre. Cubra-se bem e volte a dormir."... Ouvi dizer que há uma espécie de "termostato" no organismo, que controlaria justamente as alterações de temperatura. Seria conveniente comentar isso com o doutor? Ele me acharia hipocondríaco? Ou cínico? Por que não consigo sair da cama e esquentar a água? Aproveitaria para fazer um chá. Não gosto muito de chás, mas esquentam. Se ao menos eu não tivesse acordado por causa do frio! Não estaria nem em dúvida sobre o que fazer e nem pensando solto. Pensamentos são mulas deseducadas. Não respeitam cercas, portões, nada! Se lhes der na telha comer papel, lá vão em busca de papel, mesmo que para isso tenham que derrubar o celeiro... Eu nem tenho celeiro. Seria bom ter um, mas moro na zona urbana, ficaria estranho. E agora não consigo imaginar ter um celeiro sem mulas, mesmo essas sem noção de respeito. Não sei que nome se dá a isso. Parece que a cabeça não para e, num processo de costura, vou de um lugar a outro, de uma ideia a outra, sem fim... É doença ou é o frio que provoca isso? Li, não sei mais onde, que frio ou calor demais podem criar delírios... Essa mania de ler coisas, aqui e ali... A coisa fica registrada, mas nem sempre sei onde, não é como naquelas fichas de biblioteca, para as quais ficamos horas (minutos, mas parecem horas), dependendo do humor da bibliotecária, para que sejam preenchidas e, ao fim, recebermos um papelzinho de péssima qualidade que nos dá a honra e o direito de emprestar livros... E elas são implacáveis! Um minuto de atraso na devolução e vem multa ou advertência... Elas não entendem que, às vezes, o último parágrafo tem que ser lido três ou quatro vezes. Pode ser o primeiro também. Como pode, se trabalham com livros?... Céus, e esse frio! Dizem que tremer ajuda o organismo a liberar calor, mas acho uma estupidez ficar tremendo se é possível não deixar o frio entrar. E mesmo assim, não consigo parar de tremer. Meu corpo é ignorante, não é nada prático. Assisti a um documentário que explicava que algumas aves têm, por vezes (ou é sempre?) mais de uma camada de penas, para evitar o frio, acho que algo como as penas menores cobrem o corpo e as maiores as recobrem... Eu não digo que não sei para que serve guardar tantas informações? Parece o sótão da casa de meu velho tio. Tudo está lá, isso é fato, mas, quem vai procurar? Sem falar na grossa camada de pó. Será que é isso que temos na mente, grossas camadas de pó? Seria razoável para explicar a razão das confusões com informações... Acho que estou ficando louco. Pensando bem, o mundo deve ter grossas camadas de pó! As pessoas não se entendem, talvez por não saberem onde está a informação apropriada para um determinado momento... Um país declara guerra a outro hoje e, após uma semana, declara a interrupção ou uma trégua. Uma pessoa diz "Amo você", com brilho nos olhos e, duas semanas passadas, parece que ela nunca viu o alvo de seu dito amor... Eu não sei, é muita coisa para pensar... e eu com frio! Esquentar água? Teria que ir enrolado em todas as cobertas. E se, por descuido, uma delas pegar fogo? Passaria o frio, mas não era o que tinha em mente... Muito arriscado! Um aquecedor no quarto! Achei a solução! Se bem que, li no jornal da semana passada que um senhor morreu queimado porque seu aquecedor deu problema. Parece que não há solução para o frio! E, não senhor, ninguém me convence de que aquele povo que vive nos polos, morando em casas feitas com blocos de gelo, não sente frio. Eu fiz a experiência: pus minha mão dentro do congelador da geladeira! Esses cientistas querem que acreditemos em tudo o que dizem! E quem garante também que ser gordo como as baleias previne o frio? Alguma delas teria contado isso? Eu tenho que parar de ler! É um aborrecimento isso, a gente tem boa-fé e acredita no que dizem... Ah, uma lareira agora! Eu estaria dormindo, feliz, aconchegado. Droga! A chata da minha prima disse que alguém contou a ela que uma senhora adormeceu em frente à lareira, na poltrona, e uma fagulha caiu em sua roupa. Acho que era algum tecido sintético, não sei, e o fogo se espalhou rapidamente. Ela ficou com noventa por cento do corpo queimados e perdeu a mão, não sei se a direita ou a esquerda. Não tem muito jeito! Saímos das cavernas, para onde fomos justamente fugir do frio, e continuamos reféns dele! E é tão grande, que não sei se meu coração está gelado porque o corpo está frio ou se o corpo esfriou porque o coração foi a fonte... Frio interior! Nenhum filósofo, que eu saiba, falou disso. Pudera, em que isso interessaria a um filósofo, que fica escondido numa barreira de livros cheirando a mofo para entender sei lá o quê... Se ele sai da biblioteca ou do escritório para tomar um café e, por azar, é atropelado ou escorrega e bate a cabeça e morre, de que adiantou ficar embolorado a vida inteira?... O galo do vizinho está cantando. Será de frio? Acho que o melhor é eu me acostumar e dar um jeito de parecer um "cubo de gelo". Treinando todos os dias, eu poderei convencer meu tolo corpo de que sou um cubo de gelo e, assim, não sentirei mais frio. O único problema - e essa é a miséria - é que jamais poderei sentir novamente o calor, aquela sensação gostosa de estar vivo entre outros vivos... Acho que é gostoso porque é um acontecimento não muito comum. É isso! Não me fará falta! Seja forte, homem! Você é um cubo de gelo, o senhor do frio, seus domínios são imensos. Será bom, embora você não possa mover-se mais por não ter articulações...

sábado, 27 de agosto de 2011

Manietado...

Transito entre dois planos curviformes
Entre eles está minha sepultura...

Ah, como queria ver no sol o "Sol"!
Quão feliz seria sem essa maldição
Que amargo diariamente, a contragosto, mas acostumado...

O que há para mim que não vejo?
No que vejo, o que não é para mim?
De que adiantam respostas quando o coração é uma bomba de fel?!

O ato emético a que me lanço agora
Não é senão a soma do quadrado dos infortúnios infames,
Cujo limite tende ao infinito...

Aguardo e tremo e torço pelo rompimento
De todos os liames físicos a este mundo,
Uma vez que já sei para onde vou
E que não há mais nada a fazer que interrompa o curso
Do destino de um proscrito!...

Mas, não! Quer Deus que permaneça
Nesta tormenta sem nexo
"Nel mezzo del camin" da ternura de um amplexo
E da inesgotável fonte de horrores - o coração humano!
Nem lá, nem cá, eis meu purgatório!

Sem divisas, sem bandeiras, sem causas...
Não defendo sequer a mim mesmo...
E nestas malditas linhas tortas
Aguardo o "auto de fé" que me queime com elas!...


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Estultices ao Luar

Sem mais...
Sem menos...
Simplesmente, sem...

Nem mais...
Nem menos...
Puramente, nem...

A vida canta, sem mais...
A vida chora, sem menos...
A vida parte sem...

Você sonha, nem mais...
Você grita, nem menos...
Você vive, nem...

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Quase Autorretrato (Ah, Bocage!...)



Olhos baços, embora antes profundos,
Catadura infeliz de misantropo,
Boca mordaz a devorar os mundos,
Na cadência do "allegro ma non troppo".

Cínico, sarcástico e “filantropo”,
(Sustando pensamentos tão rotundos,
O que é comum para o normal “antropo”)
Sigo cantando a glória dos imundos!

Sem ser puro, tampouco puritano,
Olho ao redor a doce pudicícia
Que acalma o coração atormentado...

Ainda acho que o homem, ano após ano,
“Confunde” sua pureza co’a espurcícia
Que finge não haver, oh recalcado!

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Olhos de Campos Floridos - A um “coração que pulsa sob plumas”.

          Nunca entenderemos a mente humana, os escaninhos da alma... Imediatamente após meu divórcio, eis que escrevi o que segue. Não há explicações... ou as há para poucos...

Teus olhos, quando os vi, à vez primeira,
Gelaram-me os sentidos e a razão,
De vez que nunca houvera essa altaneira
Paisagem divisado o coração.

Van Gogh, mesmo gênio, sem visão,
Jamais acertaria a sobranceira
Colina, misto ousado co’o sertão,
"Tes yeux" que, belos, mandam ribanceira

Abaixo, em queda livre e sem fim,
Em verdes e amarelos insondáveis
Àqueles tais que, soltos, encantados,

O Paraíso viram extasiados,
Tão puros e tão loucos e incansáveis –
Oh verdes girassóis que trago em mim!

Caminheiro


Andar, perdido em si, em tal deserto,
Configurado na essência humana,
E perceber que o tino não se engana
No tresvariado caos que aponta certo...

O “vir a ser” do oásis sempre perto
É o que a paz do homem mais afana,
E a angústia dessa trama soberana
Condu-lo ao vórtex em que acaba inserto...

Perdido anda, assim, perdido chora,
E olhando as próprias mãos rotas de areia
Expressa no ar grafema indecifrável...

Com sustenido grito ele implora...
E sua voz entrecortada alteia
A extrema dor e inimaginável...

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Pânico da Solidão

Vencida a mente, o cérebro vencido,
Impostas que lhes foram drogas, corro,
Fugindo ao medo vivo e pressentido
Marcado no “éter” do pronto-socorro!

Não sei por que já a tantas eu não morro!...
Desvencilhar-me do ônus carcomido...
Sentir o fluido hemático, num jorro,
Fugir porque algum vaso foi rompido!...

Tolices, devaneios ou ressaca,
A boca amarga o anti-hipertensivo,
De déu em déu eu vejo a escuridão!...

Viver, morrer... É a síndrome que ataca:
O meu pensar é sempre compulsivo,
E a minha companheira é a solidão!

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Bissoneto

          Meu pai é poeta. Mais, gosta do assunto e o estuda, tendo publicado alguns ensaios inclusive. Normalmente, escreve sonetos e trovas. Transcrevo, de seu "Major Vade-Mecum Poematicum" a explicação para bissoneto, criação sua. Por sinal, deixaram sua marca os Sonetos e Bissonetos de VÔO (com acento, pois são as iniciais de seu nome: Varlô Ôlo de Oliveira):
"[...] Criei-o na década de 60, no Rio, mas só o publiquei, num ensaio sobre Poesia, em 1968, em Curitiba. Vinte e dois versos. De 4-4-3-3, passei para 4-4-3-3-4-4 (ou de 8-6, para 8-6-8, forma estrófica melhor). Para evitar dificuldades rimáticas, admite-se o esquema ababcdcd, efgefg e hihijkjk [...]"

          Estou longe de ser poeta, mas, como tive ocasião de dizer antes, aqui mesmo, às vezes escrevo em versos. Daí, noite insone, veio a "herética" ideia de tentar um bissoneto... Como não devo nada a escola alguma nem pretendo alcançar lugar algum com isso, ei-lo (usei o esquema rimático abbaabba cdecde abbaabba):


Bissoneto da Incapacidade de Amar

Sentir arder a chama indefinível,
Querer ousar a sanha dos amantes –
Arpejos de mil cordas dissonantes –
Morrer no coração indisponível...
Tornar a questionar-se se é possível,
Com tantos sentimentos suplicantes,
Pesando dividendos e montantes,
Amar portando a paz incognoscível...

Intenso nessa busca por tolices
O peito ri e sangra e estertora
Gozando a antevisão do paraíso...
E parte, tolo, afeito às estultices
Do pérfido sentir que se assenhora
Do desgraçado que perdeu o siso!...

Oh, dor da carne d’alma putrescível!
Discórdias vivas entre os querelantes
Recordam corpos a dançar, arfantes,
Sem ter, no entanto, a perfeição tangível
Da idolatria pétrea e invencível
Que outrora ornava os corações cantantes...
Motivos estes, tais, desconcertantes,
Que fazem esse amor tão desprezível!


domingo, 18 de julho de 2010

"Soneto escrito às pressas sob a tempestade"

A um demônio.


Vinde, infeliz, a olhar os campos santos

Em que estorcego agora de loucura.

Ride e cantai ao pé da sepultura

Das dores e dos ossos – e são tantos!


Dançai com frenesi e sem usura

A sanha que vos trouxe e a outros tantos

- Tormento dos propósitos mais santos

Com que fingi ornar-me a catadura!


Vinde e vinde, com fúria e sem descanso!

Perpetuai o ódio que engalana

Minh’alma inconsolável e perdida!


Se atravessei as vagas sem remanso,

Trazei um fim para a miséria humana:

Interrompei, de um corte, a minha vida!

domingo, 11 de julho de 2010

Dor

          Hoje dói muito. Elevo minhas miseráveis forças à Vida em forma de gratidão e carinho, pensando em todos os momentos que compartilhamos na estrada.
          Fique bem! (09/07/2010 - 10/07/2010).

quarta-feira, 28 de abril de 2010

"Ego sum"

Já não trago a ilusão de ser poeta; no entanto, ainda assim, às vezes escrevo em versos, o que é bem diferente.
Segue soneto que, "parido" hoje, trouxe-me algum contentamento, sem pretensão maior. Em seguida, duas observações.

               Na luta entre o meu eu e o "eu" do outro,
               Que a insistência faz que eu assimile,
               Assento em mim, bem como assento n'outro
               Mendaz glutão, que é o meu fac-simile.

               Entendo, enfim, que quem a alguém simile
               Pretende ser, em si, bem mais que o outro
               E, agindo assim, franqueia se assimile
               Figuração fugaz que assiste n'outro.

               Se "eu sou eu somado às circunstâncias",
               Padeço do fugir camaleônico,
               Perseguidor cruel da mente humana.

               Em suma, divisadas as instâncias,
               Reclamo, com meu brado ultrassônico,
               A paz falaciosa que me ufana.

Em língua portuguesa encontra-se "fac-símile" (note-se o acento agudo); utilizo a palavra com deslocamento da tônica para a sílaba "mi". Ao fim da segunda estrofe, tomo a liberdade de lançar mão de neologismo: há o verbo "fac-similar" em nosso idioma e, para efeito do poema, o substituo por um tal verbo "similar" (afinal, liberdade poética...).
Permito-me escandir os versos a fim de possibilitar a "audição de meu canto":

      Na| lu|ta en|tre o| meu| eu| e o| "eu"| do| ou|tro,
      Que a| in|sis|tên|cia| faz| que eu| as|si|mi|le,
      As|sen|to em| mim|, bem| co|mo as|sen|to| n'ou|tro
      Men|daz| glu|tão,| que é| o| meu| fac-|si|mi|le.

      En|ten|do, en|fim|, que| quem| a al|guém| si|mi|le
      Pre|ten|de| ser|, em| si|, bem| mais| que o| ou|tro
      E, a|gin|do as|sim,| fran|quei|a| se as|si|mi|le
      Fi|gu|ra|ção| fu|gaz| que as|sis|te| n'ou|tro.

      Se| "eu| sou| eu| so|ma|do às| cir|cuns|tân|cias",
      Pa|de|ço| do| fu|gir| ca|ma|le|ô|nico,
      Per|se|gui|dor| cru|el| da| men|te hu|ma|na.

      Em| su|ma,| di|vi|sa|das| as| ins|tân|cias,
      Re|cla|mo,| com| meu| bra|do| ul|tras|sô|nico,
      A| paz| fa|la|ci|o|sa| que| me u|fa|na.

É isso.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Conceitos

          Provavelmente é "causo". Mas, se não é verdade é poético. Conta-se que, há não sei quantos anos, um grupo de pesquisadores franceses, em visita científica ao Pantanal, ao avistar a grande ave que o simboliza teria exclamado: "Que beau jabot rouge!" - "Que belo papo vermelho!" - (pedindo vênia a possíveis deficiências gramaticais; no entanto, jabot, "papo", é substantivo masculino, e rouge foi encontrado por este franco-analfabeto também como adjetivo ou substantivo masculino).

          Imagino que o caboclo brasileiro, o nosso "legítimo eu", de tanto ouvir a expressão, associou facilmente, pela sonoridade, jabot e rouge, até fixar "jaboru" e, finalmente, "jaburu". No entanto, mais factível, consta do tupi-guarani (ou nheengatu, como preferirem) o significado advindo de característica da ave: "garganta inchada", "papo inchado" (e o nome científico do tuiuiú, ave ciconiforme em risco de extinção, é Jabiru mycteria). Igualmente poético, pois a observação de detalhes, mesmo por "homens práticos", preocupados com a caça ou com a localização e, enfim, com o conhecimento do mundo em volta, requer "sintonia fina" que, para a mente, é poesia.

          O que leva à reflexão é o fato de o nome ter adquirido a conotação de "indivíduo feio", "esquisito", "tristonho". As cegonhas, e o nosso jaburu, andam de forma que pode ser considerada "desengonçada", e senso estético é privilégio de poucos... Muitas pessoas (quem sabe mesmo este escriba) são achincalhadas com epíteto originário de lendária visão francesa ou da aguçada percepção indígena, mas com inegável "paixão estética", o que demonstra nossa incansável vocação à deturpação.

          Consola-me a visão do nobre animal e de seu altivo caminhar, alheio, não às nossas ações deletérias, mas, felizmente (como todos os animais), à nossa ideação degenerada.
         
          São as pílulas de hoje.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Tristeza pela Peremptoriedade das Coisas

          William S. Burroughs, escritor norte-americano nascido em 1914 e morto em 1997, teve atribulada vida, de que pouco conheço. No entanto, ao ler seu livro "O Gato por Dentro" (L&PM Pocket, 2007), encontrei algumas (muitas) "semelhanças" em alguns traços de sentimentos e visões de mundo. Transcrevo, da página 78, tocante relato (para mim, de fato, o livro tem o verdadeiro formato do que hoje conhecemos como blog):


          "O livro dos gatos é uma alegoria, na qual a vida passada do escritor se apresenta a ele como uma charada felina. Não que os gatos sejam marionetes. Longe disso. Eles são criaturas vivas que respiram, e quando se tem contato com qualquer outro ser, isso é triste: porque você vê as limitações, a dor e o medo e a morte final. É isso que significa contato. Isso é o que vejo quando toco um gato e percebo as lágrimas escorrerem por meu rosto." (grifo nosso)

          Sinto, senti, e creio que sentirei isso sempre em contato com os animais... O que me causou espanto foi verificar a descrição clara de sentimentos tão profundos e algo confusos. E, embora nem sempre seja possível evitar, sou obrigado a perguntar-me sempre se vale a pena "dar broncas" por travessuras e coisas do gênero, ante a fragilidade, a pureza (no sentido de não terem muito mais que o instinto a guiá-los) e a "confiança" que depositam em nós. Há alguma, mas não total nem contínua, semelhança com o que se pode sentir em relação a crianças, principalmente bebês e, com muito esforço de coração e pensamento, em relação aos seres humanos em geral.

          Reflexões...

         

sábado, 19 de dezembro de 2009

Alphonsus de Guimaraens Filho

          Primeiramente, deixo endereço de site que merece (e deve) ser lido, a respeito do grande poeta que, em nenhum momento "ficou à sombra do pai": http://aiuslocutius.wordpress.com/2008/08/30/a-morte-de-alphonsus-de-guimaraens-filho-e-o-nosso-analfabetismo-literario/

          Transcrevo, como homenagem (que será sempre incompleta) um pequeno poema do Gigante (talvez não o mais expressivo mas, se a poesia tem ao menos uma vantagem, é o fato de poder "ser grande ou pequena" conforme o leitor). Ei-lo ("Sequência"):


          Os bois mugem para a grande
          solidão que os agasalha.
          (Os homens acham na paz
          do campo a paz que apunhala.)

          Os cães uivam para a lua
          um uivo fino e ofegante.
          (Os homens padecem a lua
          e a dor em canto se expande.)

          Os gatos choram na noite
          como em fundo sofrimento.
          (Os homens padecem a noite
          uma outra noite antevendo.)

          As traças devoram a vida,
          papirógrafos sem pressa.
          (Os homens se dão aos livros
          e a vida, como lhes pesa!)

          Os ratos pelos armários
          deixam apenas fragmentos.
          (Os homens se dilaceram,
          as próprias cinzas temendo.)

          E a vida só se asserena,
          se atenua, se aquieta,
          quando num rosto cansado
          sombra, apenas, se dispersa.


Poema retirado do livro "O Tecelão do Assombro" (Editora 7 Letras, 2000, p. 28)


         

sábado, 21 de novembro de 2009

Minha Gatinha Maltratada

          Está conosco há relativamente pouco tempo e, por isso, ainda "nos estudamos" um ao outro, com a cautela necessária do medo. Afinal, consta que ela foi muito maltratada (e já conta com aproximadamente 13 anos). Veio com o nome "Kika", mas tenho, por princípios emocionais, não chamar um animal nessas condições pelo nome cujo som possa evocar "lembranças" tristes. Contudo, ainda não encontrei um nome para ela. Pensei em "Branquinha", mas não gostei; "Algodão", mas ela também não é tão "fofa" assim (os outros gatos que o "miem"); quis mais: escolher um nome em tupi-guarani, mas não funcionou (primeiramente porque é difícil para quem não entende a língua meter-se a "juntar" pedaços, correndo o risco de falar bobagem). Chamo-a de "minha filha", enquanto isso.

          Já houve algum progresso, ou melhor, bastante progresso. Ela não permitia sequer a aproximação, sem aqueles amistosos "tapas" com as garras expostas (bendita tintura de iodo a 2%!). Hoje, e tenho certeza de que ela "pensa" que eu não vejo, quando estou no lusco-fusco da mente obnubilada pelos remédios, ela "se enfia" sob minha mão e se esfrega com prazer, parece-me desconhecido por ela, em meu braço - gesto, aliás, típico dos gatos, tidos ainda como animais "ariscos", "independentes", "interesseiros"; essa visão não passa de reflexos antigos da época em que os ratos eram cultuados por representarem a prosperidade e a capacidade reprodutora, e seus predadores naturais eram queimados vivos, enquanto os perpetradores da façanha cantavam e giravam em torno das piras da ignomínia. Enfim, eu finjo que faço movimentos "involuntários" e ela se deleita para, depois, deitar-se aos meus pés.

          Tento administrar a ciumeira geral. Trato a todos igualmente, afinal sou o "macho-alfa" aqui. Não permito que ela persiga os outros e nem que os outros a persigam. Bendito o ser humano que, num raciocínio simples mas totalmente lógico, criou aqueles borrifadores de água - muito utilizados (ou estou ultrapassado?) por quem "passa" roupas. Uma borrifada aqui, outra ali, e a paz volta a reinar, sem grandes traumas.

          Talvez seja impróprio para um ser humano dizer isso, mas tenho facilidade para amar os animais (lógico) e, principalmente, os "lazarentos", os "execrados", os "excluídos". Desde minha infância, por exemplo, lembro-me de amar os urubus, os gambás (a nossa velha e querida cuíca), os morcegos, as lagartixas, e por aí vai. Lembro-me, também, de certa feita, quando minha mãe precisou resolver alguns problemas na rua e, obviamente tive que acompanhá-la. Do ônibus, vi um cachorro esquálido (sabem aqueles cães "amarelos" que costumam multipovoar o grupo dos cães de rua?) tentando alcançar uma lata de lixo cuja "boca" estava alta demais para ele, enquanto a "turba multa" divertia-se, com o riso dos inconsequentes. Perguntei, com minha eterna dor: "Mãe, como se chama o médico que cuida dos animais?". Ela me olhou (e juro que ela já sabia o motivo da pergunta!) e disse: "Veterinário". De pronto, respondi: "Quero ser Veterinário quando crescer!".

          Talvez não explique muito, mas quando olho para a "mal-humorada" felina, todas as lembranças reviram-se e meu peito só sabe dizer: "Seja bem-vinda, minha filha!".