segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A Descoberto

          Frio, imenso frio, na alma e que se reflete no corpo. Tremores, a busca por um cobertor que nunca basta. A ideia desesperada de preparar uma bolsa de água quente... E a coragem de mover-me? Nesse momento, um pensamento: "o frio atinge os ossos?". Que besteira! Por que pensar isso? De onde veio isso? Dou-me conta de que, como nos dias de febre, pensamos coisas, muitas coisas, que vêm de diferentes e variados compartimentos da mente ou, sei lá, do mundo exterior e que de alguma forma captamos. Perdi-me novamente e a providência para cessar meu frio não é tomada. A casa totalmente escura. Sei-a de cor. Sei quantos passos até a sala e o que devo contornar. Daí até a cozinha e como achar o fogão. Sei mesmo até quando a gata está à minha frente ou não, para que não lhe pise o rabo. Gata velhinha, já sem muita noção. Coitada! Sofreu horrores em sua antiga casa, nem sei como sobreviveu 13 anos!... Acolhi-a porque tive empatia. Hoje sei que se não o tivesse feito ninguém o faria: temperamental ao extremo, cheia de "não-me-toques", "pode isso, mas não pode aquilo"... Rio-me porque, ainda assim, eu a conquistei. Só preciso que entenda duas coisas: o meu lado da cama é sagrado e vassouras e objetos semelhantes em minha mão não são armas... Acho que é este o fator que nos faz sentir tanto frio: a coisificação da vida! Sim, isso mesmo! A nada damos valor, a nada acolhemos verdadeiramente, a nada respeitamos. O frio deve ser o reflexo íntimo do mal que em nós prevalece... E cá estou novamente, tremendo, divagando e sem tomar providências para cessar o frio! Mas, e se eu fizer tudo e ele permanecer? Estarei louco? Será o caso de procurar um médico e dizer "Doutor, sinto muito frio! Não sei de onde vem, mas é muito forte!"... Acho que não... ou sim? Médicos não sabem lidar com o imensurável. Certamente, ele aferiria a temperatura e diria: "Não há sinal de febre. Cubra-se bem e volte a dormir."... Ouvi dizer que há uma espécie de "termostato" no organismo, que controlaria justamente as alterações de temperatura. Seria conveniente comentar isso com o doutor? Ele me acharia hipocondríaco? Ou cínico? Por que não consigo sair da cama e esquentar a água? Aproveitaria para fazer um chá. Não gosto muito de chás, mas esquentam. Se ao menos eu não tivesse acordado por causa do frio! Não estaria nem em dúvida sobre o que fazer e nem pensando solto. Pensamentos são mulas deseducadas. Não respeitam cercas, portões, nada! Se lhes der na telha comer papel, lá vão em busca de papel, mesmo que para isso tenham que derrubar o celeiro... Eu nem tenho celeiro. Seria bom ter um, mas moro na zona urbana, ficaria estranho. E agora não consigo imaginar ter um celeiro sem mulas, mesmo essas sem noção de respeito. Não sei que nome se dá a isso. Parece que a cabeça não para e, num processo de costura, vou de um lugar a outro, de uma ideia a outra, sem fim... É doença ou é o frio que provoca isso? Li, não sei mais onde, que frio ou calor demais podem criar delírios... Essa mania de ler coisas, aqui e ali... A coisa fica registrada, mas nem sempre sei onde, não é como naquelas fichas de biblioteca, para as quais ficamos horas (minutos, mas parecem horas), dependendo do humor da bibliotecária, para que sejam preenchidas e, ao fim, recebermos um papelzinho de péssima qualidade que nos dá a honra e o direito de emprestar livros... E elas são implacáveis! Um minuto de atraso na devolução e vem multa ou advertência... Elas não entendem que, às vezes, o último parágrafo tem que ser lido três ou quatro vezes. Pode ser o primeiro também. Como pode, se trabalham com livros?... Céus, e esse frio! Dizem que tremer ajuda o organismo a liberar calor, mas acho uma estupidez ficar tremendo se é possível não deixar o frio entrar. E mesmo assim, não consigo parar de tremer. Meu corpo é ignorante, não é nada prático. Assisti a um documentário que explicava que algumas aves têm, por vezes (ou é sempre?) mais de uma camada de penas, para evitar o frio, acho que algo como as penas menores cobrem o corpo e as maiores as recobrem... Eu não digo que não sei para que serve guardar tantas informações? Parece o sótão da casa de meu velho tio. Tudo está lá, isso é fato, mas, quem vai procurar? Sem falar na grossa camada de pó. Será que é isso que temos na mente, grossas camadas de pó? Seria razoável para explicar a razão das confusões com informações... Acho que estou ficando louco. Pensando bem, o mundo deve ter grossas camadas de pó! As pessoas não se entendem, talvez por não saberem onde está a informação apropriada para um determinado momento... Um país declara guerra a outro hoje e, após uma semana, declara a interrupção ou uma trégua. Uma pessoa diz "Amo você", com brilho nos olhos e, duas semanas passadas, parece que ela nunca viu o alvo de seu dito amor... Eu não sei, é muita coisa para pensar... e eu com frio! Esquentar água? Teria que ir enrolado em todas as cobertas. E se, por descuido, uma delas pegar fogo? Passaria o frio, mas não era o que tinha em mente... Muito arriscado! Um aquecedor no quarto! Achei a solução! Se bem que, li no jornal da semana passada que um senhor morreu queimado porque seu aquecedor deu problema. Parece que não há solução para o frio! E, não senhor, ninguém me convence de que aquele povo que vive nos polos, morando em casas feitas com blocos de gelo, não sente frio. Eu fiz a experiência: pus minha mão dentro do congelador da geladeira! Esses cientistas querem que acreditemos em tudo o que dizem! E quem garante também que ser gordo como as baleias previne o frio? Alguma delas teria contado isso? Eu tenho que parar de ler! É um aborrecimento isso, a gente tem boa-fé e acredita no que dizem... Ah, uma lareira agora! Eu estaria dormindo, feliz, aconchegado. Droga! A chata da minha prima disse que alguém contou a ela que uma senhora adormeceu em frente à lareira, na poltrona, e uma fagulha caiu em sua roupa. Acho que era algum tecido sintético, não sei, e o fogo se espalhou rapidamente. Ela ficou com noventa por cento do corpo queimados e perdeu a mão, não sei se a direita ou a esquerda. Não tem muito jeito! Saímos das cavernas, para onde fomos justamente fugir do frio, e continuamos reféns dele! E é tão grande, que não sei se meu coração está gelado porque o corpo está frio ou se o corpo esfriou porque o coração foi a fonte... Frio interior! Nenhum filósofo, que eu saiba, falou disso. Pudera, em que isso interessaria a um filósofo, que fica escondido numa barreira de livros cheirando a mofo para entender sei lá o quê... Se ele sai da biblioteca ou do escritório para tomar um café e, por azar, é atropelado ou escorrega e bate a cabeça e morre, de que adiantou ficar embolorado a vida inteira?... O galo do vizinho está cantando. Será de frio? Acho que o melhor é eu me acostumar e dar um jeito de parecer um "cubo de gelo". Treinando todos os dias, eu poderei convencer meu tolo corpo de que sou um cubo de gelo e, assim, não sentirei mais frio. O único problema - e essa é a miséria - é que jamais poderei sentir novamente o calor, aquela sensação gostosa de estar vivo entre outros vivos... Acho que é gostoso porque é um acontecimento não muito comum. É isso! Não me fará falta! Seja forte, homem! Você é um cubo de gelo, o senhor do frio, seus domínios são imensos. Será bom, embora você não possa mover-se mais por não ter articulações...

sábado, 27 de agosto de 2011

Manietado...

Transito entre dois planos curviformes
Entre eles está minha sepultura...

Ah, como queria ver no sol o "Sol"!
Quão feliz seria sem essa maldição
Que amargo diariamente, a contragosto, mas acostumado...

O que há para mim que não vejo?
No que vejo, o que não é para mim?
De que adiantam respostas quando o coração é uma bomba de fel?!

O ato emético a que me lanço agora
Não é senão a soma do quadrado dos infortúnios infames,
Cujo limite tende ao infinito...

Aguardo e tremo e torço pelo rompimento
De todos os liames físicos a este mundo,
Uma vez que já sei para onde vou
E que não há mais nada a fazer que interrompa o curso
Do destino de um proscrito!...

Mas, não! Quer Deus que permaneça
Nesta tormenta sem nexo
"Nel mezzo del camin" da ternura de um amplexo
E da inesgotável fonte de horrores - o coração humano!
Nem lá, nem cá, eis meu purgatório!

Sem divisas, sem bandeiras, sem causas...
Não defendo sequer a mim mesmo...
E nestas malditas linhas tortas
Aguardo o "auto de fé" que me queime com elas!...


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Estultices ao Luar

Sem mais...
Sem menos...
Simplesmente, sem...

Nem mais...
Nem menos...
Puramente, nem...

A vida canta, sem mais...
A vida chora, sem menos...
A vida parte sem...

Você sonha, nem mais...
Você grita, nem menos...
Você vive, nem...

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Quase Autorretrato (Ah, Bocage!...)



Olhos baços, embora antes profundos,
Catadura infeliz de misantropo,
Boca mordaz a devorar os mundos,
Na cadência do "allegro ma non troppo".

Cínico, sarcástico e “filantropo”,
(Sustando pensamentos tão rotundos,
O que é comum para o normal “antropo”)
Sigo cantando a glória dos imundos!

Sem ser puro, tampouco puritano,
Olho ao redor a doce pudicícia
Que acalma o coração atormentado...

Ainda acho que o homem, ano após ano,
“Confunde” sua pureza co’a espurcícia
Que finge não haver, oh recalcado!

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Olhos de Campos Floridos - A um “coração que pulsa sob plumas”.

          Nunca entenderemos a mente humana, os escaninhos da alma... Imediatamente após meu divórcio, eis que escrevi o que segue. Não há explicações... ou as há para poucos...

Teus olhos, quando os vi, à vez primeira,
Gelaram-me os sentidos e a razão,
De vez que nunca houvera essa altaneira
Paisagem divisado o coração.

Van Gogh, mesmo gênio, sem visão,
Jamais acertaria a sobranceira
Colina, misto ousado co’o sertão,
"Tes yeux" que, belos, mandam ribanceira

Abaixo, em queda livre e sem fim,
Em verdes e amarelos insondáveis
Àqueles tais que, soltos, encantados,

O Paraíso viram extasiados,
Tão puros e tão loucos e incansáveis –
Oh verdes girassóis que trago em mim!

Caminheiro


Andar, perdido em si, em tal deserto,
Configurado na essência humana,
E perceber que o tino não se engana
No tresvariado caos que aponta certo...

O “vir a ser” do oásis sempre perto
É o que a paz do homem mais afana,
E a angústia dessa trama soberana
Condu-lo ao vórtex em que acaba inserto...

Perdido anda, assim, perdido chora,
E olhando as próprias mãos rotas de areia
Expressa no ar grafema indecifrável...

Com sustenido grito ele implora...
E sua voz entrecortada alteia
A extrema dor e inimaginável...